A Meta deixou qualquer pessoa criar a tua cara com IA. Durou quatro dias
A Meta lançou o Muse Image e deixou estranhos gerar imagens da tua cara a partir do Instagram. Quatro dias depois, recuou. O que aconteceu e como te proteges.
Rita Moreira
Durante quatro dias, qualquer pessoa conseguiu criar imagens da tua cara com inteligência artificial, sem te pedir nada. Bastava escrever o teu nome de utilizador do Instagram.
A ferramenta chamava-se Muse Image. A Meta lançou-a a 7 de julho de 2026 e retirou-a menos de uma semana depois, a 13 de julho, depois de uma onda de indignação que juntou utilizadores comuns, especialistas de privacidade e até agências de atores de Hollywood.
Vou contar-te o que aconteceu. E porque é que isto muda a forma como olhas para a tua própria cara na internet.
O que era o Muse Image
O Muse Image era um gerador de imagens por IA integrado na Meta AI, disponível no Instagram e no WhatsApp. Permitia criar, editar e fundir fotografias com comandos escritos em linguagem normal. A diferença face a outros geradores estava num detalhe: podias mencionar o nome de utilizador de outra conta pública e a ferramenta usava as fotos dessa pessoa para gerar a imagem.
Na prática, não precisavas de seguir ninguém. Não precisavas de autorização. Escrevias o username, descrevias a cena, e a IA construía uma imagem com a semelhança daquela pessoa.
O problema não era a tecnologia. Era o botão
Todos os perfis públicos de adultos no Instagram foram inscritos nesta funcionalidade automaticamente, por defeito. Ninguém carregou em "sim". Ninguém recebeu um aviso a dizer que a sua cara estava disponível para estranhos gerarem imagens.
Jornalistas que testaram a ferramenta conseguiram criar imagens de pessoas que nunca tinham seguido nem contactado. A única forma de escapar era saber que a opção existia e ir desativá-la à mão, escondida três menus abaixo nas definições.
Se tens uma conta pública e queres confirmar que está fechada, o caminho é este:
- Abre as definições do Instagram no teu perfil
- Toca no menu das três linhas, no canto superior direito
- Entra em "Partilha e reutilização"
- Em "Permitir que as pessoas reutilizem o seu conteúdo", desativa Publicações e Reels
Quem não quiser mexer em nada tem uma alternativa mais simples: tornar a conta privada.
A marca de água que não resolvia nada
A Meta respondeu às críticas a lembrar que cada imagem gerada trazia uma marca de água invisível chamada Content Seal, pensada para identificar conteúdo criado por IA. O problema é que essa marca só diz "isto foi feito por IA". Não diz "esta pessoa autorizou". E não apaga a imagem depois de criada.
Os especialistas de privacidade foram directos: identificar a origem de uma imagem não é o mesmo que pedir consentimento a quem aparece nela. Uma coisa resolve a rastreabilidade. A outra, a permissão. O Muse Image tinha a primeira e faltava-lhe a segunda.
Porque é que isto te interessa a ti
Há aqui uma lição que vai muito além da Meta. A tua cara real, nas fotos que publicas, é matéria-prima para qualquer sistema de IA que lhe consiga chegar. Basta um serviço decidir que "público" significa "disponível" e o teu rosto passa a ser um recurso que não controlas.
É por isso que cada vez mais criadores optam por trabalhar com um rosto que não é o seu: uma personagem gerada por IA, consistente e inteiramente controlada por quem a criou. Não há foto real para ninguém raspar. Não há semelhança de uma pessoa verdadeira a proteger. Se quiseres perceber como se constrói uma identidade digital assim do zero, explicamos o processo aqui.
Há ainda um pormenor legal por resolver. A partir de 2 de agosto de 2026, o AI Act europeu passa a exigir que conteúdo gerado por IA seja identificado de forma visível. Uma marca de água invisível como o Content Seal pode não chegar. O recuo da Meta foi rápido, mas a discussão sobre quem manda na tua cara está só a começar.
Perguntas frequentes
O Muse Image ainda funciona?
Não. A Meta retirou a funcionalidade de referenciar contas públicas a 13 de julho de 2026, poucos dias depois do lançamento, após críticas de utilizadores, defensores da privacidade e representantes de atores. As imagens já criadas nesse período, no entanto, não foram eliminadas.
As minhas fotos do Instagram foram usadas?
Só se a tua conta for pública e alguém tiver mencionado o teu nome de utilizador durante os dias em que a ferramenta esteve ativa. Contas privadas nunca estiveram disponíveis. Não há forma de saber ao certo se aconteceu, porque a Meta não notificava ninguém.
Como impeço que isto se repita?
Desativa a reutilização de conteúdo nas definições do Instagram, em "Partilha e reutilização", ou torna a conta privada. Estas opções aplicam-se a futuras funcionalidades semelhantes, não só ao Muse Image.