A apresentadora criada por IA que divide a televisão espanhola: a história de Alba Renai
Alba Renai aparece todas as semanas na Telecinco. Tem 24 anos, é bonita e confiante. E nunca existiu. A história de como a criaram e porque divide opiniões.
Rita Moreira
Alba Renai é uma influencer e apresentadora de televisão espanhola criada inteiramente por inteligência artificial. Foi lançada em Setembro de 2023 pela agência criativa BE A LION (pertencente à Mediaset Espanha) e tornou-se a primeira influencer virtual gerada por IA a apresentar conteúdo associado a um grande formato televisivo em Espanha. Em 2026, quando a Mediaset decidiu trazê-la de volta para o Supervivientes pela segunda vez, metade dos espectadores espanhóis protestou nas redes sociais. A outra metade ficou fascinada com o que ela consegue fazer.
Em Março de 2026, a Telecinco anunciou que Alba Renai iria apresentar novamente os "Supersecretos" do Supervivientes, o espaço digital com conteúdo exclusivo do reality show espanhol mais visto do ano.
Os comentários chegaram quase imediatamente:
"Não a queremos. Queremos Maria Lamela."
"A coisa da IA é uma vergonha."
"Parece real mas não é. Por que é que estão a fazer isto?"
Os apresentadores da Telecinco, Patricia Pardo e Joaquín Prat, ironizaram sobre a existência dela em directo. A Mediaset ignorou tudo isso e manteve Alba Renai no ar.
O que me intriga nesta história não é a polémica. É como é que, em 2026, uma imagem gerada por IA consegue parecer real o suficiente para provocar esta reacção. E o que é que a agência por trás dela sabe que a maioria ainda não percebeu.
Fica. Mais à frente explico como Alba Renai foi criada, qual a tecnologia que lhe dá este aspecto, e o que isto significa para qualquer pessoa que queira criar algo semelhante.
Quem é Alba Renai (e quem a criou)
Antes de falar da tecnologia, é preciso perceber o contexto.
Alba Renai foi criada pelo departamento VIA Talents da BE A LION, uma agência de criatividade e comunicação digital pertencente à Mediaset Espanha, o grupo de media por trás da Telecinco. Não foi um projecto independente de dois criadores em casa, mas um investimento corporativo num produto de comunicação novo.
A agência foi fundada em 2023 com o objectivo de criar metahumanos e avatares digitais gerados e treinados por inteligência artificial, para marcas que queiram estabelecer ligações mais contínuas com o seu público.
Alba Renai foi o primeiro produto deste departamento. E foi construída de forma metódica.
Antes de gerar uma única imagem, a equipa da BE A LION realizou um estudo com 350 jovens adultos. Perguntaram-lhes quais os atributos físicos e de personalidade que mais valorizavam numa figura pública. Compilaram os dados. E construíram uma pessoa com base nessas respostas.
O resultado foi Alba Renai: 24 anos aparentes, cabelo castanho, olhos claros, estética de moda europeia, presença confiante mas acessível. Tecnicamente, está dentro do que os investigadores chamam "beauty standards hegemónicos": jovem, magra, branca, sem imperfeições visíveis.
É exactamente este pormenor que dividiu a opinião pública: não só porque é uma IA, mas porque é uma IA optimizada para agradar ao máximo de pessoas possível. O que levanta uma questão legítima sobre que ideais de beleza estamos a normalizar quando a "pessoa perfeita" é criada com dados.
Como é que Alba Renai parece tão real
Esta é a parte que mais interessa a quem trabalha com imagem.
A criação de um avatar com o nível de realismo de Alba Renai envolve várias camadas:
Geração de imagem base. A aparência física foi criada com ferramentas de geração de imagem por IA. Em 2023 e 2024, as principais opções profissionais para este tipo de trabalho eram Midjourney (versão 6 ou superior), DALL-E 3 e Stable Diffusion com modelos especializados. O que a BE A LION usou especificamente não foi divulgado, mas o resultado visual sugere o uso de modelos de alta qualidade com prompts muito detalhados sobre anatomia, iluminação e estilo fotográfico.
Consistência de identidade. Este é o desafio técnico mais difícil: garantir que a mesma pessoa aparece em todas as imagens, com o mesmo rosto, as mesmas características, o mesmo estilo. Em 2026, as ferramentas para resolver isto incluem o "character reference" disponível no Midjourney, o sistema de Subject Customization do Vertex AI Imagen 3 da Google, e a funcionalidade de imagem consistente do Flux Kontext. Sem esta camada de consistência, cada imagem parece uma pessoa diferente.
Voz e apresentação. Para os vídeos dos "Supersecretos", Alba Renai tem uma voz gerada por IA. Ferramentas como ElevenLabs permitem criar vozes ultra-realistas em espanhol com prosódia e emoção natural. A voz é depois sincronizada com a imagem para criar a ilusão de uma pessoa a falar.
Pós-produção editorial. Mesmo com as melhores ferramentas de IA, as imagens passam por revisão humana. A equipa da BE A LION ajusta detalhes, garante consistência entre publicações e toma as decisões editoriais sobre o que Alba Renai faz em cada conteúdo.
O resultado final não é uma única ferramenta de IA a gerar tudo automaticamente. É um processo com várias etapas, onde a IA trata da parte visual pesada e uma equipa criativa toma as decisões.
A polémica real: o que o debate sobre Alba Renai revela
A rejeição pública de Alba Renai em Espanha tem várias camadas.
A primeira é emocional: as pessoas preferem uma figura humana com quem se possam identificar. Maria Lamela, a apresentadora humana que normalmente faz esse papel, tem história, erros, personalidade e o tipo de imperfeições que tornam alguém relatável.
A segunda é laboral: quando uma empresa substitui um apresentador humano por uma IA, está a eliminar um posto de trabalho. A Mediaset não declarou isto abertamente, mas o subentendido é claro para quem trabalha em media.
A terceira é estética: a perfeição visual de Alba Renai incomoda precisamente porque é optimizada. Não parece real de forma orgânica, parece real de forma calculada. Há uma diferença entre uma pessoa bonita e uma pessoa criada para parecer bonita para o máximo de pessoas. O que a psicologia chama de "uncanny valley" não é só sobre se algo parece humano. É sobre se parece humano da forma certa.
Apesar de tudo isto, a Mediaset manteve Alba Renai no ar. O que significa que a decisão passou um teste interno de métricas. As visualizações dos "Supersecretos" provavelmente justificam a continuidade.
E isto é o sinal mais claro de 2026: as grandes empresas de media já perceberam que a IA visual funciona, mesmo quando o público diz que não quer.
O que muda em 2026 na criação de imagem por IA
Quando a BE A LION criou Alba Renai em 2023, estava na vanguarda de algo que poucos sabiam fazer. Três anos depois, as ferramentas que permitem criar um avatar deste nível de realismo estão acessíveis a praticamente qualquer pessoa.
O Midjourney gera rostos fotorrealistas num segundo. O ChatGPT (no plano gratuito) consegue criar imagens de pessoas que parecem fotografias. O Flux Kontext resolve o problema da consistência facial sem precisar de infraestrutura técnica complexa. O ElevenLabs clona e gera vozes realistas em qualquer língua, incluindo português.
O que diferenciava a BE A LION em 2023 era o conhecimento do processo e das ferramentas certas. Esse conhecimento é cada vez menos exclusivo.
O que continua a diferenciar quem obtém resultados de qualidade de quem fica frustrado com resultados medíocres é o método. Saber a sequência certa, as ferramentas certas para cada etapa, e como resolver o problema da consistência são os passos que não aparecem nos tutoriais de cinco minutos no YouTube.
Alba Renai vai continuar a aparecer na Telecinco. A Mediaset apostou e não vai recuar.
O que fica desta história para quem trabalha com criação de imagem não é a polémica. É a prova de que o nível de realismo que vemos aqui já saiu do domínio exclusivo de grandes agências com orçamentos corporativos.
Ainda há diferença entre o que a BE A LION fez e o que é possível fazer sozinho com ferramentas gratuitas. Mas essa diferença está a diminuir todos os meses.
Se quiseres perceber como se cria um avatar de IA do zero com método, o guia completo está aqui: Como criar um influencer virtual de IA do zero